Este é um trecho do artigo escrito por Ju Sieg e Lígia Orlandin, militantes do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), e publicado originalmente no site Em Defesa do Comunismo.
À luz do recente aprofundamento do genocídio do povo palestino em Gaza, torna-se imperativo desvendar as raízes profundas do movimento sionista e sua materialização no Estado de Israel em 1948. É crucial romper com narrativas simplificadas e abordar de forma contundente a questão da limpeza étnica, que se manifestou como um projeto contínuo do Estado de Israel desde sua criação.
A essência do Estado de Israel perpassa a dominação do povo palestino e a constante judaização dos territórios palestinos, visando assegurar a maioria judaica naquele território. […]
Iniciamos este documento, portanto, trazendo um breve levantamento histórico sobre tais questões, acompanhado de análises sobre o sionismo, as limitações dos grupos sionistas intitulados ‘marxistas’ e ‘socialistas’ (como Poalei Zion), e o nosso entendimento sobre o que é o Estado de Israel. Esta abordagem crítica busca lançar luz sobre as dimensões menos exploradas da questão palestina, incentivando uma reflexão profunda sobre suas origens e consequências.
I) Palestina: do Império Otomano ao Mandato Britânico
Para compreender a intensificação da disputa internacional sobre a região, é fundamental voltarmos ao final da Primeira Guerra Mundial, momento em que a região da Palestina, anteriormente sob o domínio do Império Otomano, entrou em disputa junto às demais localidades do Oriente Médio durante a Campanha do Sinai e Palestina. Essa campanha ocorreu após o avanço dos Aliados sobre terras otomanas, especialmente após a tomada do Canal de Suez pelo Império Britânico em 1915.
Entre 1917 e 1918, a Revolta Árabe marcou uma série de revoltas populares contra o domínio otomano, com a reivindicação da criação de um único estado árabe do Iêmen à Síria. Essa revolta recebeu apoio dos países aliados, notadamente da Grã-Bretanha e França, sob a promessa de respeitar a independência dos reinos árabes locais. Contudo, prevendo a possível derrota do Império Otomano, França e Grã-Bretanha assinaram um acordo secreto de divisão da região do Oriente Médio (Acordo Sykes-Picot) em 1918.
Com a assinatura do Armistício de Mudros, a ofensiva otomana sobre a região cessou, consolidando-se o Mandato Britânico da Palestina, que perdurou de 1920 a 1948. Durante esse período, as condições do Mandato Britânico moldaram significativamente o cenário político e social na região, lançando as bases para as tensões que culminariam na criação do Estado de Israel em 1948.
II) A organização e fortalecimento do movimento sionista internacionalmente
Durante o século XIX, a Europa experimentou um aumento significativo do antissemitismo, sobretudo nos países do leste, resultando na marginalização e perseguição dos judeus, refletida na negação de direitos civis, especialmente nos estados cristãos, como era o caso da Prússia. Esse período levou a uma profunda reflexão por parte da intelectualidade europeia sobre a chamada “questão judaica”, visando compreender as origens do antissemitismo, suas manifestações e, crucialmente, explorar maneiras de superá-las. […]
Como resposta à marginalização dos judeus, o movimento sionista começa a emergir na Europa, inicialmente como uma necessidade de revitalizar o “espírito do judaísmo” – uma expressão coletiva, cultural e religiosa que, ao longo do tempo, evolui para uma perspectiva nacionalista. Essa transformação implica no entendimento de que os judeus não constituem apenas um grupo étnico ou religioso, mas formam uma nação.
O termo “sionismo” é introduzido publicamente em 1890 por Nathan Berbaum. No entanto, somente em 1896, após o lançamento da obra “O Estado Judeu” de Theodor Herzl, a questão se desenvolve abertamente como um projeto político de estabelecimento de uma nação. Esse movimento necessita da internacionalização para a criação de um Estado-lar para os judeus, além de alinhamento com os poderes políticos europeus. Um ano após a publicação da obra de Herzl, o 1º Congresso Sionista é concretizado, marcando a fundação da Organização Sionista Mundial.
O surgimento do movimento sionista na Europa Central no final do século XIX visa revitalizar o povo judeu em seu lar ancestral após quase dois mil anos de exílio, resultado do fracasso dos judeus em assimilar-se à sociedade ocidental e da intensificação do antissemitismo na Europa. O historiador israelense Shlaim, em “A Muralha de Ferro” (2000), aponta para a solução da questão da autodeterminação judaica por meio da constituição de um estado próprio, com maioria absoluta judaica, independente e soberano politicamente, alinhado com as ideologias nacionalistas europeias. […]
III) Resistência durante o mandato britânico, a imigração sionista e primeira proposta de partilha
O período que antecede a Segunda Guerra Mundial é caracterizado pela forte organização da resistência árabe contra o colonialismo britânico, evidenciado pelas Revoltas Árabes de 1936 a 1939, além do aumento expressivo da imigração sionista. Antes disso, entretanto, os sionistas, por meio da Declaração Balfour conseguem o apoio do governo inglês no comprometimento da construção de um “lar nacional judeu” na Palestina. Esse movimento viabiliza a construção de diversos assentamentos na região, bem como o estabelecimento de fundações políticas, econômicas, militares e culturais na Palestina, que descambam nas Revoltas Árabes (MARSALHA, 2012, p. 32-4)
Em resposta às ações populares, a Grã-Bretanha, desloca um contingente de 25.000 soldados para a Palestina, apoiados pelas milícias sionistas Stern, Irgun e Haganá. Este período testemunha a perda de aproximadamente 5.000 vidas palestinas, 10.000 feridos e 5.679 detenções. Simultaneamente, o projeto sionista ganha força suficiente para se consolidar como um projeto de Estado. O empreendimento colonial na Palestina torna-se central para o movimento sionista, buscando incessantemente o apoio da Grã-Bretanha, a principal potência imperialista da época.
Em julho de 1937, a Real Comissão de Inquérito (Comissão Peel) recomenda pela primeira vez a partilha da Palestina em dois Estados, um árabe e um judeu, sugerindo até mesmo a “transferência” da população árabe para territórios externos ao Estado judeu. Segundo a proposta, 20% da Palestina histórica comporia o Estado judeu (englobando cidades como Jaffa, Haifa, Acre e Nazaré), enquanto o mandato britânico permaneceria em torno da região e 70% continuariam sob domínio árabe. […]
Em 1947, a pedido da Grã-Bretanha, a ONU estabelece o UNSCOP (United Nations Special Committee on Palestine) para elaborar um plano de partilha da região. Em 29 de novembro do mesmo ano, a ONU aprova a partilha da Palestina entre dois estados, um árabe e um judeu, dividindo a região em oito partes, com 55% do territórios aos judeus e apenas 45% aos palestinos. […]
IV) Al Nakba: a catástrofe em 1948
[…] Contudo, o desafio não se limitou à mera remoção da população árabe das regiões urbanas e rurais da Palestina; a essência era inviabilizar seu retorno. Essa estratégia respondia a dois interesses cruciais na época: o desejo sionista de estabelecer uma presença exclusivamente judaica e o interesse britânico em transferir sua responsabilidade de mandato para as Nações Unidas, uma vez que a região já não era tão lucrativa no Oriente Médio.
A Nakba de 1948, historicamente marcada pelos eventos de 15 de maio, testemunhou 750.000 palestinos deslocados e expulsos de suas casas durante a invasão de 531 vilarejos e 11 bairros urbanos por forças militares sionistas. A expulsão meticulosa dos palestinos após a resolução 181 da ONU foi arquitetada via levantamentos de dados realizados por intelectuais da Universidade Hebraica Ben-Zion Luria, a Agência Judaica e o Fundo Nacional Judaico, resultando nos Arquivos dos Vilarejos. […]
Os Arquivos dos Vilarejos não apenas mapearam as regiões árabes a serem atacadas, mas também categorizaram a “hostilidade” dessas áreas em relação ao projeto sionista, baseando-se na participação das vilas na Revolta Árabe de 1936-1939. Esses dados fundamentaram o êxito do Plano Dalet, que direcionou ataques diretos a vilarejos e urbanizações, marcando um território específico para a fundação de Israel. […]
V) O que é sionismo?
[…] Mesmo antes da fundação do Estado de Israel, durante a Segunda Guerra Mundial, os sionistas já planejavam a deportação dos árabes da Palestina, evidenciando a conexão do sionismo com práticas coloniais. Essa abordagem é confirmada pelo líder sionista, que declarou a necessidade de “transferir os árabes para os países confinantes”. A judaização das terras palestinas, portanto, começou no contexto da colonização pela comunidade sionista no final do século XIX e não se encerrou com a criação de Israel, mantendo-se em constante estado transitório.
O nacionalismo judeu está entrelaçado com a ideologia nacionalista europeia, buscando reinterpretar as raízes históricas da Bíblia Hebraica. Essa instrumentalização da religião judaica como uma ferramenta nacionalista visa recriar um passado comum para todos os judeus, transformando-os em uma raça e grupo biológico distintos. […]
Desde o princípio, a parcela hegemônica do movimento sionista estava alinhada às necessidades históricas dos judeus europeus, o que significa que, ao consolidar Israel, as visões sobre como gerir um “estado moderno” abraçam as inúmeras contradições típicas dos estados burguês ocidente. É inegável dizer, por exemplo, que sim: existem judeus que sofreram e sofrem violência estatal por parte do sionismo. A história dos judeus mizrahi, por exemplo, que constituem a maioria da classe trabalhadora dentro de Israel, foi de intensa marginalização por parte do governo sionista desde a leva de imigração dos anos 1950.
[…] Portanto, denunciar a judaização do território palestino, a desapropriação das terras palestinas e a exploração do povo palestino implica necessariamente denunciar o sionismo e, por conseguinte, o Estado Sionista de Israel. […]