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Arbitrariamente definido como “Topo do Mundo”, o Círculo Polar Ártico sempre foi um objeto de fascínio de expedições marítimas. Apesar de não possuir uma massa continental propriamente dita, o oceano é congelado, tornando qualquer tentativa tradicional de navegação impossível. A ideia de que algo podia estar escondido naquele espaço não- catalogado do mapa criou inúmeras hipóteses sobre a natureza do lugar. Talvez tivesse, ali, águas quentes depois que ultrapassasse as imperfuráveis paredes de gelo, o que possibilitaria novas rotas marítimas. Assim, durante meados do Século XIX, exploradores europeus e norte-americanos construíram embarcações com cascos reforçados, capazes de quebrar camadas de gelo. Quando chegaram, não encontraram águas quentes, muito menos possibilidades de rotas marítimas; ao invés disso, encontraram pessoas. Pessoas que, diferentemente dos exploradores que chegaram, se familiarizavam com o frio; sabiam como construir abrigos feitos para frio, caiaques e usavam trenós para se locomoverem eficientemente.
De maneira similar, uma das histórias mais conhecidas sobre a Antártica pertence ao almirante estadunidense Richard Byrd. Suas expedições e relatos do continente são diretamente responsáveis por muitos dos conhecimentos meteorológicos e experimentos que continuam relevantes até hoje para os cientistas que conduzem pesquisas no continente. Sob premissa de coletar dados científicos, seguida pelo argumento de que não teria espaço para três pessoas, e duas pessoas encheria o saco um do outro, na década de 30 Byrd realiza uma expedição sozinho para Antártica, morando em uma cabana no meio do continente de gelo.
Em muitos aspectos, a ideia do frio parece estar sempre ligado com o perigo do isolamento. Tanto as expedições do Polo Norte quanto do Byrd são experiências isolantes. Mas ao mesmo tempo, elas são contadas e recontadas como fábulas cheias de orgulho. No contexto popular, o frio também possui, de certa forma, um aspecto de “positivo apesar do negativo”. É no frio que as roupas mais chiques podem finalmente ser vestidas; e diferentemente do calor, no frio sempre podemos colocar mais uma blusa, mais uma camada de cobertor. Dentro das nossas ficções científicas, o frio ganha, ainda, um novo horizonte imaginativo de ser algo controlável e previsível na forma de tecnologias dominadas pelas civilizações do futuro - como a preservação via criogenia para longas viagens espaciais, por exemplo -. E na ciência não-fictícia, essa noção é reforçada quando consideramos que cada vez mais o frio se torna um componente das novas descobertas, como a importância cada vez maior de um ambiente frio para computação quântica, e o fato do registro da menor temperatura jamais medida no Universo observável inteiro ter sido feito aqui, no próprio planeta Terra dentro de laboratórios de física, com valores muito próximos do zero absoluto.
Mas, do mesmo jeito, o frio possui seu lado cruel, também. Em muitas obras, o frio é usado como elemento que retira do protagonista o senso de controle e liberdade, isolando-o do resto da civilização. O Enigma de Outro Mundo explora essa ideia de maneira, talvez, sutil quando o motivo pelo qual, mesmo diante de um alienígena monstruoso de terror absoluto, a tripulação continua perto da criatura: eles não têm escolha. A criatura talvez mate todos; mas o frio antártico com certeza vai. Nisso, percebe uma dinâmica indiscriminada que o frio impõem sobre cada uma das personagens. Nenhum membro da tripulação é mais forte que outro diante do frio, e o próprio alienígena estava congelado até ser reanimado pela mesma tripulação. O frio, aqui, ganha um senso de equalizador natural.
Tanto nas histórias das expedições aos polos do mundo quanto n’O Enigma de Outro Mundo, o frio veste a roupa de um antagonista individual, íntimo, que isola um do resto do mundo. Nas memórias de Byrd, em uma das passagens que relata o momento que mais esteve próximo da morte, ele nota que, um dia, acordou com uma sensação estranhamente depressiva, sem motivação alguma de fazer nada. A sensação de não-vontade perduraria por dias enquanto suas habilidades de realizar tarefas mais simples diminuíam, até um dia em que se encontrou com uma dor de cabeça tão intensa que o impossibilitava de se mexer. A falta de ventilação dentro da sua cabana fez com que acumulasse monóxido de carbono pela combustão produzida no seu fogão. O almirante se viu diante de uma dicotomia impossível: continuar respirando o gás tóxico que eventualmente roubaria todas as suas faculdades, ou desligar a sua única fonte de calor tão preciosa.
No entanto, mais vezes que menos, o frio, quando visto de uma ótica social, é uma força invariavelmente discriminadora. O frio, dentro de um contexto coletivo, é uma força que revela as mais minuciosas fraquezas nas infraestruturas que outrora são ignoradas, perfurando paredes finas e janelas de camada única de apartamentos um pouquinho mais acessíveis no capital da especulação imobiliária, nunca projetados propriamente para o frio. Em 2022, um casal colocou uma churrasqueira acesa dentro do cômodo para se protegerem do frio. Ambos foram encontrados mortos na manhã seguinte por uma das filhas do casal. O falecimento foi causado por asfixia via monóxido de carbono - o mesmo gás que continuamente roubava todas as faculdades de Richard Byrd -. Em agosto de 2024, durante os dias mais frios do ano em São Paulo, com temperaturas apenas unidades de distância do zero celsius, foram registradas ao menos três mortes de pessoas em situação de rua diretamente causada pelo frio. No mesmo mês, uma morte por hipotermia foi registrada em São Bernardo do Campo, também envolvendo uma pessoa em situação de rua.
Esses incidentes estão longe de serem isolados ou atípicos. Em grande parte, eles se repetem todos os anos: em 2016 e 2019, algumas regiões de São Paulo chegaram a registrar valores negativos. Em 2021, a Zona Sul de São Paulo viu temperaturas de -3,0ºC, a menor já registrada desde 2004, obrigando pessoas em vulnerabilidade a se aglomerarem em pleno estado de pandemia da COVID-19. São poucas pessoas que, como o almirante Richard Byrd, escolhem por vontade própria visitar o frio desabrigado: é ele que vem até nós. E sempre quando isso acontece, pouco importa a biologia de cada corpo em aguentar ou não o frio, uma vez que, enquanto sociedade, o frio é um assunto muito mais sobre os recursos materiais que aqueles com autonomia e poder aloca do que de fato aguentar as temperaturas.
Em 2024, durante a Operação Baixas Temperaturas na cidade de São Paulo, foram disponibilizadas emergencialmente 1200 vagas para acolher cerca de 25 mil a 50 mil pessoas em situação de rua, oferecendo sopa, pão, chocolate quente, chá, água e cobertores. Do mesmo jeito que a quantidade de pessoas excedeu em 20 a 40 vezes as vagas disponíveis, os insumos foram comprados por preços até 400% mais caros que preço de mercado. Campanhas foram levantadas, também, pedindo doação de cobertores e blusas em geral. Essas ações são importantes. Elas de fato podem ajudar uma pessoa e diminuir, de alguma forma, o sofrimento daqueles que não podem simplesmente pôr mais uma roupa. Mas é essencial, também, entender que são ações de remendo; não estão resolvendo o problema em si. Acima de tudo, pode-se levantar, inclusive, um lado cínico ao perceber que, sobretudo, esse tipo de ação possui também um lado moralista que isenta aqueles com poder de mudar de fato o sistema, e aqueles com condições de lutarem de fato: “eu doei um cobertor, fiz algo”.
Enquanto humanos, somos falhos em muitos aspectos. Construímos apartamentos que talvez não fossem pensados para o frio; acendemos fogo para nos aquecer em ambientes fechados; somos arrogantes em imaginar que no Topo do Mundo haveria algo exclusivamente para nós. O frio incomoda aqueles que tem e pune aqueles que não tem; ele nos lembra das nossas falhas sistêmicas ao mostrar o quão desesperadora uma situação realmente é. O frio não é uma força antropocêntrica, apesar das nossas ficções e não- ficções. Mas ao mesmo tempo, forças de fato antropocêntricas vão invariavelmente influenciar na maneira como o planeta reage a nós. Desde as décadas finais do século passado, cientistas alertam sobre a possibilidade de invernos cada vez mais frios e verões cada vez mais quentes em função dos avanços predatórios ao meio ambiente. Essa possibilidade, a cada inverno que passa e a cada verão que se aproxima, só se mostrou cada vez mais real. Individualizar esse problema e, consequentemente, a sua luta, não é uma opção.