Dialogando com a crítica à Comissão de Recepção

Por Leitores
05 de agosto de 2024

O texto a seguir foi enviado via forms de contato do BoletIME e não necessariamente condiz com a opinião do corpo editorial.

Há alguns dias, li um artigo sobre a Carta da Comissão de Recepção publicada na edição de Maio do BoletIME. A Comissão de Recepção, conforme descrito no artigo, é um grupo de veteranos encarregado de organizar a Semana de Recepção no IME-USP. Eles preparam uma série de palestras e atividades para ajudar os novos alunos a se integrarem e conhecerem melhor o instituto.

No artigo do BoletIME, o(a) autor(a) aborda a temática escolhida pela Comissão de Recepção deste ano (Kung Fu Panda) e destaca um trecho do Relatório da Semana de Recepção aos Calouros enviado à Pró-Reitoria: “[…] Logo após tais premiações, a equipe com maior pontuação obtida ao longo da gincana foi premiada com macarrão instantâneo e hashi, muito comuns na culinária chinesa, fazendo assim referência à temática da semana de recepção Kung Fu Panda […]”.

O texto ressalta vários problemas nessa fala. Dois aspectos me chamaram a atenção: o macarrão instantâneo é uma invenção atribuída ao Japão (apesar das muitas influências chinesas em sua história, Japão e China são países diferentes, com culturas distintas) e como essa afirmação reforça estereótipos sobre a Ásia (que são bastante problemáticos). Para mais detalhes, recomendo a leitura do artigo original.

Embora o(a) autor(a) não diga isso explicitamente, considero importante enfatizar: esse tipo de discurso é racista e xenofóbico (agravado pelo uso das fontes wonton). Isso não quer dizer que a Comissão de Recepção tenha intencionalmente promovido discursos preconceituosos: erros acontecem, e o fundamental é reconhecê-los e evitar que se repitam.

Não sei se a Comissão de Recepção possui uma posição oficial sobre o assunto, mas me preocupou ouvir membros do grupo chamando isso de “frescura” e “chatisse”. E este não foi o único incidente neste último ano.

No início do ano, recebi no grupo de meninas do BCC um vídeo publicado pela Comissão de Recepção no Instagram. Eles criaram uma série de vídeos apresentando os cursos do IME para os calouros, incluindo um vídeo sobre o Bacharelado em Ciência da Computação (BCC). O vídeo começava com uma piada delineando o estereótipo de um estudante do curso. Uma das falas iniciais foi “se você tem medo de mulher… então BCC é o curso pra você”.

Mesmo sendo uma piada, essa fala carrega inúmeros problemas, principalmente porque o BCC é um curso predominantemente masculino. Como se sentiria uma das poucas mulheres ingressando no curso ao ouvir que os estudantes desse curso têm medo dela? O quão confortável se sentiria uma menina sonhando em ingressar no curso ao ouvir esse tipo de comentário?

Piadas carregam discursos e podem ofender pessoas. E o discurso aqui é machista.

Vale destacar que o contexto influencia a aceitação de uma fala. Dizer que quem cursa BCC tem medo de mulher pode ser aceitável entre amigos, mas não para o público externo, especialmente para aqueles que nunca frequentaram uma faculdade e sonham em ingressar no curso. E ainda mais quando a fala vem da Comissão de Recepção.

Diante desses incidentes, qual foi a postura da Comissão de Recepção? Consideraram as pessoas que poderiam ter ofendido e repensaram seus discursos? Refletiram sobre como poderiam ter redigido a carta à Pró-Reitoria ou feito as piadas iniciais do vídeo de forma a acolher mais pessoas? Não sei a posição oficial do grupo, mas conversando com membros, não pareceu que houve a devida atenção à questão. Ouvi comentários como “chatisse”, “frescura” e “encheção de saco”.

Que tipo de Comissão de RECEPÇÃO seria essa se não se preocupar em acolher bem a todos, independentemente de gênero, idade, cor de pele, orientação sexual, etc.? Por fim, deixo registrado que este texto não é uma crítica à Comissão de Recepção, mas sim um convite à reflexão, necessária para que futuros calouros (e não calouros também) se sintam mais confortáveis e bem acolhidos. Espero que este texto chegue a alguém e possa ajudar a promover alguma mudança.

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