Por que Israel não deveria participar dos jogos olímpicos de 2024?

Por F.B.
09 de julho de 2024

Dia após dia, acompanhamos os crimes que Israel comete contra os palestinos em Gaza e na Cisjordânia. Em meio ao processo de limpeza étnica e genocídio e à luz dos Jogos Olímpicos de Paris, foi divulgado que ao menos 342 atletas palestinos foram assassinados desde o início da atual ofensiva israelense.

A reação natural da comunidade, que é solidária a causa palestina, foi exigir o banimento de Israel dos jogos Olímpicos. O histórico de boicote esportivo para situações como a da Palestina é vasto. O melhor exemplo que podemos citar é o da África do Sul, que, entre outras sanções, sofreu boicote esportivo e foi suspensa dos Jogos Olímpicos como resposta ao regime de Apartheid. A semelhança entre os casos é evidente, e não por acaso foi o Estado sul-africano que iniciou o processo que acusa Israel de genocídio em Gaza.

Historicamente, lideranças sul-africanas também associaram o regime de Israel com o Apartheid. Outro exemplo que podemos citar é o da Rússia e de Belarus, que estão sofrendo uma suspensão parcial devido à invasão da Ucrânia.

Em alguns esportes, atletas desses países podem competir sem suas bandeiras e símbolos nacionais. Em outros, como o judô, não haverá nenhuma representação russa. Essa posição do Comitê Olímpico Internacional é reflexo de uma ordem baseada no imperialismo, em que pouco importa a situação do povo palestino, ou mesmo do povo ucraniano. Como Israel está alinhado com os interesses estadunidenses, os EUA jamais permitirão sanções e boicotes contra Israel semelhantes aos contra a Rússia.

O que vemos, então, são as iniciativas pouco organizadas de países individuais, com destaque para os países árabes, que tem uma posição conjunta de não reconhecer Israel. No caso do esporte, podemos voltar ao judô, que tem uma peculiaridade de ser muito popular tanto em Israel quanto nos países árabes e também em outros países de maioria muçulmana da região, como o Irã. Curiosamente, a origem comum desse fenômeno são os laços com a União Soviética, onde o judô era muito popular. A grande presença de judeus soviéticos em Israel foi o que popularizou o judô no país, enquanto o resto da região teve mais influência da presença de militares soviéticos, que incorporavam judô aos seus treinamentos.Por conta disso, no judô, mais que em qualquer outro esporte, há muitos confrontos entre israelenses e árabes ou muçulmanos, e muitas vezes estes se recusam a enfrentar seus pares israelenses como forma de boicote e solidariedade. Diferente daqueles que são solidários a Ucrânia, e que tem anuência do COI para não precisar enfrentar russos, os atletas solidários a causa Palestina enfrentam severas punições, sob a desculpa conveniente de uma separação entre política e esporte (que todos sabemos que não existe). Os atletas israelenses também têm o privilégio de expor sua bandeira e símbolos nacionais, numa tentativa de apagar os crimes de guerra através da participação esportiva. Estes movimentos de boicote individuais são importantes e devem ser apoiados, mas suas limitações são evidentes. Enquanto Israel envia inúmeros atletas para Paris, a Palestina envia apenas seis. Ao menos 342 atletas palestinos foram assassinados. Apenas um boicote total a Israel, incluindo, mas não limitado ao boicote esportivo, pode mudar essa situação. O exemplo da África do Sul sob o Apartheid prova isso, e esses jogos olímpicos são uma grande oportunidade de demonstrar verdadeira solidariedade internacional à causa Palestina. Deve ser exigido o fim da influência imperialista estadunidense, que manifesta-se e sobrepões seus interesses em todos os setores que seus tentáculos alcançam. Para tanto e, e com início imediato, apontar e exigir efetivas mudanças na postura pouco congruente do Comitê Olímpico em prol da conquista de reconhecimento internacional da causa e reparação dos atletas palestinos.

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