60 anos do golpe de 64

Por CAMat
01 de abril de 2024

O golpe empresarial-militar no Brasil, posto em marcha em 1964, completa neste período 60 anos. O momento é sempre propício para retomarmos o ocorrido, tanto em atos de homenagem para aqueles que sustentaram a luta em resistência frente à ditadura, quanto em balanço de nossas atuações tendo em vista o avanço da extrema-direita no país.

A conjuntura demonstra o acomodamento de certos setores na defesa da democracia em abstrato, e estes discursos foram vistos nas eleições de 2018 e 2022. No estágio de novo crescimento das forças fascistas na política institucional, os setores vacilantes colocam como imperativo a formação da “frente ampla” - ou “frente única antifascista” -, que encurrala a classe trabalhadora na armadilha de “mas você prefere o fascismo ou a democracia?”. Ora, tal questionamento é ardiloso, pois ao focar sobre a diferença entre democracia e fascismo, busca tirar de vista o fato de que a ditadura de 1964 - 1985 deixou em nossos governos “democráticos” um legado fascista. Tomemos por exemplo as chacinas da Candelária (RJ/1993), Pinheirinho (SP/2012), Cabula (BA/2015) e, mais recente, as da Baixada Santista (SP/2023-) - poderíamos citar tantas outras -, ou ainda as fortes repressões nas mobilizações de rua qual seja a pauta: contra o aumento da tarifa, por mais direitos trabalhistas, pelo aborto seguro e legalizado, por mais investimentos na educação, etc, ou também as prisões políticas e o encarceramento em massa.

Portanto, o estreitamento da política na falsa dicotomia entre democracia e simplesmente “fascismo” retira de pauta as nuances que existem no tratamento para todas as diferentes questões e lutas invariavelmente herdeiras do nosso passado, confinando tudo em jargões vazios. Se almejamos dar alguma consequência ao dito “ditadura nunca mais”, se faz necessário compreendermos a história de nosso país para que possamos enfrentar e interpretar as diferentes facetas da extrema-direita com ferramentas e recursos adequados para endereçar os diferentes locais de atuação.

No contexto uspiano, por exemplo, podemos tomar como pontapé a estruturação da Cidade Universitária Armando Salles de Oliveira. O campus Butantã possui diversos institutos espalhados pelo seu território de tal forma que a interação e socialização entre suas comunidades é baixa, cada local é uma bolha própria. Isso não é por acaso. Até 1968, os cursos da Rua do Matão, FFLCH e ECA, por exemplo, eram ministrados no prédio da MariAntônia - a antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. É após o conflito entre estudantes da USP, ligados à União Estadual dos Estudantes, e estudantes da Mackenzie, ligados ao Comando de Caça Comunista (CCC), que há a decisão de desativar a FFCL e descentralizar os cursos na cidade universitária, buscando diminuir o engajamento do movimento estudantil.

Podemos ainda falar do Conjunto Residencial da USP - o CRUSP, que, desde a sua ocupação por estudantes, o local passou a ser polo de resistência à ditadura militar. Para além do caráter habitacional, o residencial configurava um polo aglutinador dos estudantes com grupo de teatro, festas, confecção de jornais, como também funcionava como um centro de logística para escoamento de literatura revolucionária através da Livraria Banca da Cultura. É também em 1968 que o CRUSP foi invadido pelo exército, tendo cerca de 800 a 1000 estudantes detidos, e fechado - a reabertura ocorreu apenas em 1980.

Temos também o Regime Disciplinar da USP, posto em voga em meados da ditadura (1972), e que continua em vigor até os dias atuais, sendo usado para perseguição de estudantes - como os 6 estudantes que estão sendo processados pela universidade ao se posicionarem em defesa do povo palestino.

Estes são alguns exemplos, e se nos debruçarmos em estudar a estruturação da Universidade de São Paulo encontraremos mais, tal qual encontraremos se revisitarmos a história do Brasil. A história se torna ferramenta imprescindível para sairmos desse estágio estagnado da luta, reconhecendo o legado fascista em nossa atual democracia e permitindo avançar na construção do governo para a classe trabalhadora.

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