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O professor Paulo A. Nussenzveig, pró-reitor de Pesquisa e Inovação, escreveu, no dia 23/09/2023, uma crítica à recente mobilização estudantil que tomou conta do campus Butantã da USP. Em seu texto, ele chama os estudantes de “totalitários” e critica a falta de diálogo do movimento, tentando também deslegitimar as greves estudantis.
Nos últimos anos, não tem sido raro encontrar influenciadores políticos tomando posturas semelhantes, mas exageradas, afirmando que “estudante não faz greve”, apontando que há um “viés ideológico” presente nas universidades paulistas que está afastando os estudantes de seu estado natural de estudo. Essas afirmações demonstram um desconhecimento da história das greves estudantis, que não são exclusivas do contexto brasileiro, como mostra a greve sul-africana “#NoMoreFees” de 2015, que lutava contra o aumento das taxas acadêmicas, e a greve estudantil americana de 1970, que lutava contra avanços da Guerra do Vietnã.
Além disso, greves estudantis não são exclusivas da modernidade. Contamos com exemplos das universidades medievais, como a greve da Universidade de Paris de 1229, em resposta à morte de um grupo de estudantes pela guarda de Paris. Apesar de outras formas de greve possuírem maior respaldo legal no Brasil, observamos que as greves estudantis são tão antigas quanto o conceito de universidade. Essas são, portanto, uma forma tradicional de manifestação estudantil, nada exclusiva do contexto em que a USP atualmente se encontra.
Segundo dados levantados pela Adusp, o corpo docente da USP encolheu em 17,5% desde 2014, representando uma perda de 1.042 docentes. Tal fato se torna ainda mais alarmante ao considerarmos que o corpo discente cresceu em 12.2% na universidade entre 2014 e 2022, um aumento de 9.747 estudantes, segundo o anuário estatístico da USP. Assim, no decorrer desses últimos 9 anos cada docente ficou responsável por cerca de 33% mais estudantes. Esses números tornam evidente o processo de precarização do cargo. Consequentemente, essa carência também resulta na perda de qualidade do ensino universitário que deveria capacitar as próximas gerações de professores.
A diminuição do número de professores tem efeito direto na jornada acadêmica dos estudantes, que enfrentam uma redução não só no número de disciplinas eletivas oferecidas, mas também de obrigatórias, que são canceladas por falta de docentes para oferecê-las. Além disso, as disciplinas obrigatórias que são oferecidas frequentemente lotam, e com isso uma parcela dos estudantes é impedida de cursá-las em período ideal. A USP recentemente adquiriu o status de melhor universidade da América Latina, segundo o relatório internacional da Quacquarelli Symonds. Não parece adequado sustentar esse título enquanto vários cursos, como Letras-Coreano e Obstetrícia, estão desestruturados pela falta de professores. As pautas levantadas pela greve são relevantes à medida que buscam frear a precarização da nossa universidade, objetivo que deveria ser do interesse de toda a comunidade universitária.
A afirmação do pró-reitor de que o movimento estudantil é totalitário ignora as disparidades políticas que existem nos Conselhos Universitários: estudantes e funcionários possuem poucos representantes, enquanto os docentes são maioria. Nesse contexto, os interesses dos estudantes são sub-representados em um regime que este sim assemelha-se ao totalitarismo, fato que é evidenciado justamente pela falta de docentes afetar especialmente o corpo discente.
O pró-reitor ainda menciona que não é razoável considerar democráticas as decisões das Assembleias de Estudantes já que, apesar de aberta, só uma parcela dos estudantes é presente. Por outro lado, as comissões de graduação da universidade são fechadas, tomam decisões que afetam diretamente os estudantes, e é possível contar nos dedos o número de representantes discentes nelas presentes. Assim, se por essas razões as assembleias estudantis não são democráticas, então a conclusão lógica é que as congregações são tiranas. Para que a universidade seja um ambiente de democracia popular é fundamental que toda a comunidade universitária tenha seus interesses devidamente representados nos espaços deliberativos, e por isso uma das pautas de greve na física é que as congregações sejam no mínimo abertas a ouvintes.
Quando um professor é contratado, supostamente reconhece-se nele uma autoridade científica, pedagógica, burocrática, entretanto devido a estrutura política da universidade é concedida a estes uma autoridade de “governar politicamente” sobre os estudantes como chefes de departamento, presidentes de congregações, diretores, pró-reitores e reitores. Enquanto grevistas que defendem contratações, é fundamental refletirmos acerca dessa estrutura, e também de onde e quais são as autoridades que reconhecemos nos professores. A estrutura política da universidade precisa refletir com mais clareza uma democracia popular, e para isso é necessário evitar o surgimento de uma “casta de professores” como apontada no Manifesto de Córdoba.
Quanto ao suposto caráter “anti-democrático” das greves estudantis, afirmo que existe uma democratização do poder à medida que os estudantes participam das decisões políticas da universidade e defendem seus interesses, muitas vezes pela primeira vez. A greve promove intensos debates, reflexões, coletas e análise de dados acerca do contexto universitário. Portanto, se a universidade se propõe a ser um ambiente de desenvolvimento das capacidades críticas de um indivíduo, defendo que seu potencial é bem explorado durante uma greve estudantil.
Enfatizo que existem múltiplas formas de comunicação: algumas que usam canais mais tradicionais, outras que são mais vulgares. Esses primeiros canais, mais “educados”, são discretos e no melhor dos casos mantêm as demandas estudantis reservadas à discussão interna. Os piquetes, assim, são uma forma de expressão denunciativa; chamam a atenção das diretorias e do público externo a fatos que, se apresentados em uma reunião ou em um e-mail, permaneceriam ignorados por maior parte da comunidade. Assim, o piquete é sim democrático pois pausa o frenético ritmo universitário para conscientização, reflexão e debate acerca de nosso contexto material, no piquete da física várias surgiram conversas muito pertinentes por vezes incluindo professores e funcionários que jamais ocorreriam se não por meio deste.
Nesse âmbito, não é surpreendente que a greve incomode alguns professores e estudantes, afinal, o intuito de uma greve é incomodar os confortáveis e confortar os incomodados. É relevante lembrar que, não muito tempo atrás, a USP era uma exclusividade de uma elite paulista, até chegar o “discurso carregado de ideologia” ao qual o professor se refere. A luta pela educação existe pois se reconhece o poder transformador que ela tem, mas que só é pleno quando há acessibilidade e qualidade. Por isso defendo que qualquer debate em defesa de uma educação exclusiva, que não considera a diversidade, é um demérito não só a USP mas ao Brasil, que muito se prejudica pelo potencial não explorado da população mais marginalizada e sem acesso à universidade. Como uma universidade pode ser democrática e para todos, se a estrutura deliberativa em si não é democrática e nem para todos? Defendo não só mais professores, mas também a democratização desse processo em si para que decidam-se quais professores, e evite-se por exemplo a contratação de docentes com denúncias de assédio como ocorreu nesse ano no IFUSP, que só não foi homologada devido a intensos protestos estudantis.
Que fique claro: todo estudante deve sim respeitar professores, funcionários e colegas. Entretanto, existe um limite entre respeito e subserviência, e a palavra “educação”, em certos momentos, é usada para borrar essas fronteiras. Não sejamos ingênuos aqui, pois já vivemos tempo o suficiente na USP para saber que as pessoas “educadas” nem sempre são as mais virtuosas e as mais interessadas em melhorar a universidade.